Conta-se que o escritor Almir Abal fora surpreendido por uma imensa falta de idéias. Não podia mais dar continuidade a um romance que escrevera, até então, com precisão técnica e emoção verdadeiras, inerentes, autodidata que era.
Confortou-se, acreditando que seria apenas um desatino passageiro, coisa de rotina, causada talvez pelo seu próprio desejo de superar-se. Mas nada lhe veio a mente, nem uma só frase se formou, nem uma idéia iluminou sua escuridão criativa.
Tomado de um sentimento novo e estranho, misto de fúria e inércia, levantou-se, desligou o computador e pôs-se a andar de um lado para o outro. Apanhou as folhas de seu romance e foi caminhar em meio a vegetação na mata próxima ao seu sítio.
Andou por entre raízes e troncos caídos, e feixes de luz que perfuravam a copa das árvores. Encontrou um lugar para sentar e ler o que já tinha escrito, ao pé de uma frondosa árvore cujas raízes serviram-lhe de assento.
O pesado vôo de um besouro chamou-lhe atenção. Acompanhou a trajetória do inseto que pousou mais adiante. Pousou na mão, na mão de uma mulher. Assustou-se, seus olhos reconheceram os formatos femininos a destacarem-se das folhas, galhos e musgos da floresta. Era uma bela moça. Ela fez um gesto de saudação, e de maneira familiar aproximou-se do escritor. Seus passos pareciam não tocar o chão.
Com tamanha leveza, a estranha segurou sua mão e indicou uma trilha na mata, convidando-o a acompanhá-la. Almir Abal dispôs-se a caminhar ao lado da moça.
- Quem é você ?- Perguntou o escritor.
- Elna Marta !- Respondeu a moça, sorrindo.
- O quê ? Que brincadeira é essa ?
- Não há brincadeira alguma, meu nome é Elna Marta.
- Mas não pode, deve haver algum engano !
- Não há enganos, sou Elna Marta, a heroina do seu romance.
O escritor distanciou-se da moça. Confuso e torpe, observou-a. Sua vestimenta condizia com sua descrição, sua aparência era exata, tal como imaginava, e seu doce jeito de dizer “não há isso, não há aquilo” era precisamente o jeito de sua personagem.
- Vamos lá, se você não acredita e mim, então faça uma pergunta que só sua personagem, “se” fosse viva, saberia responder.
O escritor continuava com a mente embaralhada, mas resolveu aceitar o desafio.
- Quem foi o grande amante de Elna Marta ?- Perguntou em tom fulminante.
- Eu não tive nenhum um amante. - Respondeu a moça com ironia. - Apenas a paixão pelo Nicolau, que conservo no anonimato.
- Me fale sobre Nicolau
- Nicolau, é um homem mulherengo e rude ! – Confessou a moça.
Almir Abal tinha absoluta certeza de que ninguém jamais lera sua obra inacabada, guardara os manuscritos em um cofre dissimulado na parede do quarto, e os arquivos de computador só eram abertos através de senhas que ninguém mais sabia. Resolveu então, aceitar o convite da suposta Elna Marta.
Acompanhou-a pelo bosque. Chegaram até uma clareira. Senhores, moças e rapazes pareciam estar a sua espera. Um súbito frio percorreu-lhe o estômago, mas Elna Marta continuava a seu lado, e isto, de alguma maneira o confortava.
As hilárias figuras que ali se encontravam falavam aos ouvidos e acotovelavam-se fitando-o. A sensação de familiaridade foi ficando mais intensa a medida que reconhecia um ou outro dos presentes.
O velho de tez pálida trazia em uma das mãos um chapéu coco e, amarrada de qualquer maneira, junto ao pescoço, uma engraçada gravata verde limão com bolinhas pretas. Já o moço branco, de botas longas e avantajado físico, usava um suspensório que elevava-lhe a calça quase ao peito. A gorda senhora, por sua vez, com luvas grossas de cozinha e vestido decotado pela metade dos seios, deixava perceber, entre seus cochichos, um inqüestionável sotaque italiano. E tantas outras figuras surgiram na clareira... Todos admiravam o escritor como um nativo isolado em um recôndito tropical admiraria o gelo.
- Estão todos aqui ? – Perguntou Elna Marta, olhando sobre as cabeças. - Bem ...! – Continuou. - Este dia é muito importante para todos nós. Conseguimos, após muito tempo, vir à presença do “Criador”. - Apontou para o escritor. Todos os presentes se atiraram de joelhos ao solo e reverenciaram o escritor. Almir Abal permaneceu hirto, sentado em uma arvore caída que servia agora de altar. Mesmo sem elucidações para o que se lhe mostrava à frente, foi subitamente tomado de uma elevação, acreditando ser ele alguma divindade. Seu olhar tornou-se altivo, sentindo a superioridade que devem sentir as divindades. Elna Marta, como os demais, estava postada. Ergue-se lentamente e reiniciou o diálogo:
- Senhor Almir Abal, viemos todos, seguros de vosso bom coração, suplicar humildemente, cada um de nós, o que desejamos para nossas vidas. - Todos se levantaram e rapidamente formaram uma fila. Os pedidos iniciaram. Almir foi reconhecendo um por um de seus personagens. Pediam-lhe desde as coisas mais fúteis até os mais complexos amores e desejos a serem atendidos. O sentimento de superioridade crescia-lhe, à medida que podia negar ou conceder os pedidos.
Terminados os pedidos, os presentes dispuseram-se em forma de U, deixando no centro um pequeno carneiro amarrado a uma pedra. Do matagal que delimitava a clareira, surgiu uma figura ainda mais estranha. Pulava, rodopiava no ar e dançava. Usava um pano enrolado cobrindo a genitália, e uma capa decorada por inúmeras teclas de computador e máquina de escrever. Na cabeça, usava uma máscara ornamentada por todas as letras do alfabeto e em uma das mãos, empunhava um grande cajado em forma de lápis com a ponta bem afiada. A figura dançava de um lado para outro, pulava por vezes pronunciando alguma letra de A à Z. Reteve-se de costas para os presentes e encarou o escritor, cumprimentou-o baixando a cabeça e repentinamente, de um só movimento, girou sob os pés cravando o cajado no pequeno carneiro.
- Espere ! - Gritou Almir Abal - O que estão fazendo ?
- O sacrifício - respondeu Elna Marta. - O sacrifício para o Sr. Almir Abal, Deus das Letras, para que nossos pedidos sejam aceitos.
- Mas eu não sou Deus, eu não sou deus nenhum ! - Um murmúrio geral tomou conta do local.
- Mas o senhor é nosso criador ! - Gritou uma velhinha por trás das pessoas.
- É, o senhor é nosso criador - repetiu Elna Marta. E todos passaram a repetir em coro - “O senhor é nosso criador...”
- Parem, parem ! - gritou o escritor - eu não sou o criador, vocês nem sequer existem, isto deve ser um sonho...
- Então o senhor acha que pode nos criar e fazer o que bem entende, depois dizer que não tem nada haver com isso ! – Acusou o moço ariano.
- Esse é o nosso Deus ?! - questionou o gordo de bigode. - Se esse nosso Deus renega a própria criação, prefiro ser o mais profundo dos ateus.
As pessoas foram ficando enfurecidas. O escritor cogitava agora alguma maneira de fugir. Um velhinho gritou:
- Mas ele é o criador, e se não fores tementes à ele, ele lançará sua ira contra vós. Portanto para viveres sem temer, devereis destruir o criador.
Um grande tumulto formou-se e partiram todos contra o escritor. Este pôs-se a correr mata adentro, e correu como nunca havia corrido, desconhecendo a presença de galhos e espinhos a sua frente. As vozes do tumulto foram ficando cada vez mais distantes até que sentiu-se seguro outra vez.
Chegou em sua casa com a intenção de destruir o romance, e acabar com a loucura que acabara de ver. Revirou gavetas e encontrou um isqueiro, mas, inesperadamente, um clarão iluminou o recinto. Almir virou-se para a luz que ofuscava-lhe os olhos. Nesta luz, letras surgiam formando palavras, e as palavras formaram frases. O escritor pode ler as frases que se formavam, e diziam:
“...revirou gavetas e encontrou um isqueiro, mas, inesperadamente um clarão iluminou o recinto...”
Ficou estático. Não queria aceitar, não queria acreditar, mas não havia outra explicação.
“Ficou estático. Não queria aceitar, não queria acreditar...”
- Não ! - Gritou o escritor - Não é possível, isso não está acontecendo. - Desesperou-se.
Resolveu então fazer um teste, permaneceu olhando para as frases da luz, e mexeu as duas mãos, e lá se escreveu:
“...mexeu as duas mãos.. ”
Agitou a cabeça em sentido negativo, e as palavras se formaram:
“...agitou a cabeça em sentido negativo...”
E compreendeu... Por fim...
“...e pegou a arma que estava na gaveta. Acabou-se assim a carreira de AlmirAbal. Fim.”
Conto de Kemel Kalif selecionado para publicação na Antologia de Contistas da Região Norte, no concurso regional de contos da Universidade Federal do Pará, ano 2000.