sábado, 3 de agosto de 2013

Perguntas e respostas para Descartes


Voraz é a noite, vorazes são os pensamentos... E vozes !? Vozes sussurram o que as vezes parece suspiro de mulher, gemido de prazer... de dor...
O vento soprou mais forte no décimo quinto andar do prédio de fachada escura, rodopiou papéis errantes, assobiou pelas frestas do apartamento, e cantarolou sonetos disformes. Na sacada, Descartes contemplou a taça de vinho que antes beijara os lábios de Mariana, e que agora reluzia o último brilho da noite. - A lua perdera-se por entre nuvens carregadas de solidão.
Descartes contemplou a cidade disfarçada por tantas luzes. - A cidade lhe era bela durante a noite ! - Desejou então, que não existissem dias... Que as noites fossem sempre assim: camuflagem para o caos urbano. Que sua própria vida fosse assim: um disfarce escondendo na escuridão seus desamores.
Sentimentos estranhos como o querer não eram bem compreendidos para Descartes. - Mas afinal, para quem o são ? - Não entendia qual força atrativa exercia a noite assim como não entendia sua própria existência. Sabia apenas, que a noite o puxava para o seu interior como um predador insaciável.
- A noite, a existência ! Porque dormir e acordar ? Porque existir ?
Tomou o último trago do copo, livrou o pescoço da gravata, galgou o parapeito, abriu o terno segurando-o como duas azas e pulou...
Sentiu o vento veloz percorrendo seu corpo, viu as luzes de cada janela passando como postes acesos na estrada... E confirmou: era verdade o que as pessoas diziam sobre os segundos que antecedem a morte !
O seio materno, o trem de pilha, o desejo pela professora do primário, a primeira mulher, o trabalho, os amigos... Tudo passou numa fração eterna de segundos. E se cada milésimo de segundo convertera-se em anos de sua vida, dedicou seus últimos anos a lembrança de Mariana.
Lembrou...lembrou, e o tempo, não mais absoluto, estava flexível, como se pudesse manipulá-lo, retroceder e avançar... Parar.
Cada traço do corpo de Mariana, o seu cheiro, trejeitos, a sensação de deslumbre ao conhece-la, foram recordados metodicamente, e antes que, em queda livre, terminasse de pronunciar o seu nome, sua mente processara cada imagem da mulher amada.
Viu-se em meio ao trânsito em um dia quente, quando voltava do trabalho. Mariana passou pela calçada com um vestido curto que lhe acentuava as pernas roliças e douradas. Ele acompanhou seu andar gracioso, ela entrou em um ônibus deixando ainda um sorriso doce e convidativo.
Noutro dia, por obra do acaso (?), a encontrara no centro da cidade. Aproximaram-se, flertaram, e o que antes era um esboço de pintura abstrata, tornou-se concreto e palpável, uma possibilidade. - A musa saíra das páginas do folhetim para prover o gozo do escritor, e o escritor, melancólico, agarraria-se como um parasita a sua criação.


O restaurante
A garota, extrovertida, pôs-se a falar de uma maneira engraçada com a língua presa no “r”, e ele, deslumbrado, encontrava alguma familiaridade naquele falar. Ela gracejava e comemorava suas próprias piadas com desatinadas gargalhadas, e ele rejubilava-se com tanta espontaneidade. Ela relatava experiências cômicas, bobas, fúteis... Ele, sorria apenas, afinal, o que é a futilidade diante do desejo ?

A casa dela
Opiniões sobre as coisas, experiências de vida, fatos ocorridos na família. A conversa tomara o tom cúmplice dos enamorados. Ela perguntava, ele respondia; ela, risos; ele, volúpia.
- Descartes ! O filosofo ?
- Não, apenas Descartes.
- Seus pais deviam gostar de filosofia, você gosta ?
- Não conheço muita coisa sobre filosofia, aliás, quero entender muitas coisas ao meu redor.
- Então você é um filosofo nato.

E depois...
Pensou naquelas palavras durante a noite: “filósofo”. Lembrava a cada instante dos lábios delineados de Mariana, a pronunciar cada sílaba: fi-ló-so-fo. Assim sentiu-se: filósofo nato.

O acaso
Mariana desceu do ônibus abraçando sua bolsa como a um bebê. Consultou o papel em que anotara o endereço, desviou de olhares insinuantes e de convites obscenos. Da janela, Descartes a viu pedir informação ao porteiro. Arrumou o apartamento, pôs para gelar um litro de vinho, vestiu o seu melhor terno. Atendeu ao chamado da campainha tentando transparecer naturalidade, encenando uma expressão de surpresa ao vê-la. Ela explicou que passava em frente ao prédio e resolvera fazer-lhe uma visita. Ele convidou-a a entrar, ofereceu-lhe o vinho, e mostrou-lhe curiosidades: relógio antigo, isqueiro a querosene, fotos de uma viagem ao Tibet, miscelâneas da infância.
Um copo e outro, mais uma garrafa. A sinceridade alcoólica se apossara de Descartes. Contemplava, em longos e admiradores olhares, as pernas cheias e tesas da moça morena. Sua vontade, toca-las. Seu desejo, preencher as mãos com os seios de Mariana.
Alguns minutos a fitá-la, e escapou-lhe a confissão em forma de clichê:
- Te amo !
A frase, sem resposta, ecoou no vazio e encheu a sala de desconcertante silêncio. Mariana, meiga - seria convincente se não fosse meiga, mas era dolorosamente meiga, - expôs o motivo que invalidava qualquer proposta de relacionamento entre os dois. Ela o tinha com apreço, mas o apreço para um apaixonado é como alimento na vitrine para quem tem fome. Descartes sentiu um calor extremo, um sufocar tamanho que obrigou-o a levantar e lavar o rosto como se lavasse a própria alma, e com ela, o desejo e a falta que já sentia de um corpo que nunca tocou.
Consolos são chibatadas que se tentam aplicar sem ferir, mas que marcam a pele, vão além da carne, e penetram o espírito para doer no âmago...
E no âmago, Descartes explodia com seus sonhos, corroía-lhe as entranhas a voz de Mariana, “Eu gosto de você, mas...”. Tomou de um só gole o vinho, conteve em um gesto sua dor, olhou a cidade esplendorosa...
- Desculpe, acho que bebi muito, nunca mais farei isso.
Mariana passou-lhe a suave mão na cabeça, imprimindo o sorriso, o mesmo doce sorriso, ainda mais platonicamente convidativo... Depois saiu.
No elevador sentiu-se suja, olhou para sua parcelada imagem no espelho quebrado e foi tomada de imensa culpa. Não era de sua estirpe joguetear com o sentimento alheio, não lhe era agradável tripudiar com coração de uma alma generosa. Mas se o fizera, era sem perceber, consolou-se.
- A culpa não foi sua – Alguém lhe falou, adivinhando seus pensamentos. Ela olhou assustada, e encontrou seu pai no elevador.
- Descartes tem livre arbítrio – Continuou o velho – Você poderá vê-lo pois ele já fez sua escolha. E de lá transfigurou-se, pois seu pai, que aliás é o pai de todos, arrebatou-a aos céus, ela que era um anjo com missão incompleta. Caiu por terra o seu corpo sem vida no mesmo instante que o corpo de um homem, na rua, era motivo de gritos e pedidos de socorro.

Deus escreve certo por linhas retas... Torto ? Torto, somos nós doutor ! ”– Falou o taxista que contou-me esta estória.

Kemel A. B. Kalif, em "Antologia de contistas da Região Norte". Belém:Universidade Federal do Pará, 1999

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Crença

- Foi em noite de insônia e de céu sem estrelas...
No quarto pequeno e quente figuravam silhuetas: Porta-retratos, aparelhos de som, lembranças de Marlene. Pela janela, contemplei janelas distantes que acendiam...apagavam, e luzes preguiçosas que vacilavam nos becos.
Uma brisa tocou-me, volveu meus pensamentos - Era a noite, era a rua. Rua deserta e escura, o breu como disfarce, ver o mundo como observador intocável. - Como Deus !
- Desejei o poder de Deus, desejei ter Marlene outra vez...
Uma estranha voz aconselhou-me: “Vá ! Ande pela noite!” Assustei-me, no quarto não havia ninguém. Compreendi que a voz era de um anjo caído, uma punição por igualar-me ao Criador.
Levantei-me desatinado, um arrepio percorreu-me o corpo. No banheiro lavei o rosto esfregando com força, não olhei para o espelho, tive medo. Caminhei em direção a janela, no caminho parei, voltei, sentei-me. Senti-me impotente perante aquela voz, senti-me um fantoche nas mãos de Deus. E fugindo da automação das criaturas de Deus, obedeci o anjo torto. Vaguei a procura de vida, e em ruas escuras a noite me abraçou, o seio da noite, regado de leite escuro, de proteção materna. Não era mera ausência de luz aquela escuridão, era um afago envolvendo o corpo.
*******
A voz me conduziu por entre pichações e cães malandros. Um grito ! Não distante, ecoou. Alguém maldizia o mundo, perdera também sua Marlene. Os gritos vinham de um velho sobrado. Uma mulher chorosa, de tez pálida abordou-me, pediu ajuda. Ela precisava de força para segurar seu irmão pois um demônio instalara-se em seu corpo. Vacilei, pensei em correr, mas a voz segredou-me que o sobrado era mágico.
Subimos por uma escada rangente que desembocava em um amplo salão, o ar era úmido, quente... estagnado, como as faces das pessoas que aguardavam. Um padre de escassos cabelos adentrou, trazendo crucifixos - não sei quantos - nas mãos e uma bíblia debaixo do braço. Tomou atitudes de um general e passou instruções para a tropa: três rapazes, uma enfermeira e uma senhora.
- Meus filhos - disse o padre - não tenhais medo dos exércitos malignos, pois o Senhor está conosco e, lado a lado, marcharemos sobre os campos da terra - baixou a cabeça, puxou ar, e continuou: - Vamos ajudar um filho de Deus que encontra-se atormentado por um demônio que apoderou-se de sua pouca fé...
- Pare com esta tolice seu padre !- interrompeu a jovem enfermeira. - Deixe-me cuidar do tal possesso, provo para todos que vinte mil rezas não vão curá-lo.
- Felizes os que crêem sem ver - retomou a palavra o padre. - Minha filha, tua pouca fé faz cederes as artimanhas deste demônio, retira-te daqui e põe-te a rezar antes que este mal se apodere da tua carne.
A mãe do enfermo integrou a equipe e passou e relatar alguns antecedentes, para que os presentes soubessem da dimensão do caso:
- Meu filho sempre foi muito estranho, ele diz que escuta vozes e que estas vozes dizem-lhe o que fazer. O demônio que se apoderou da cabeça dele é quem diz estas coisas, só pode ser coisa do capeta...
- Capeta ?! - A enfermeira interrompeu mais uma vez. Tentou convencer de que podia resolver o caso. E novamente não teve atenção. A mãe do rapaz, em prantos, continuou:
- Não tenham medo, em nome de Deus !... Segurem-no !
Seguimos ao andar superior do velho sobrado e aguardamos à porta de um quarto, enquanto o padre, a mãe do possesso e sua irmã tentavam conversar, evitando usar a força. Retornaram chamando o restante do grupo. “Entre !” ordenou-me a voz. Senti um frio na barriga como quando se desce subitamente, um medo desigual, um ódio de um demônio covarde que ordena sem se mostrar, e que coloca alguém na divisão entre a loucura e a crença, no limiar da tolerância à existência humana.
No quarto, não haviam móveis quebrados nem escritos satânicos como imaginei, apenas um jovem, sereno, sentado na cama. Se espantou com a presença de tanta gente estranha. Sentiu-se coagido, e de pé, perguntou à sua mãe quem eram aquelas pessoas. Soluçando, a mãe não conseguia responder.
O padre abriu a bíblia e começou a proferir rezas em latim.
- O que é isso mãe ? - perguntou mais alto o rapaz.
- Calma meu filho, calma, o padre está apenas rezando, é para o seu bem...
- Meu bem ?! Eu não tenho nada, não preciso disso, vocês querem é me matar, vocês vão me matar ! - O rapaz parecia agora ter adquirido ares de possesso. Continuou gritando: - Saiam daqui, vocês só querem o meu mal, todos vocês - e passou a destruir objetos a sua frente.
- O que é isso mãe ?... A senhora quer me matar... o que vocês pensam ?... Tirem este padre daqui, eu ainda não estou morto !
Todos recuaram. Permaneci estático, não pelo fato de haver em mim grande coragem, mas sim, pela familiaridade que sentia para com aquele rapaz, como se pudesse entender tudo que se passava com ele. - Nossos demônios talvez fossem irmãos.
O rapaz bradou, maldizendo a todos, nem mesmo o padre foi respeitado, o que o fazia rezar com mais força e irritar ainda mais o rapaz. No meio de tantas orações contra pragas, o rapaz atirou-se sobre a mãe agarrando-a pelo pescoço, como um cão pega sua carne e não quer mais soltar. Seguramo-lo apertando seus punhos para retirar a mão do pescoço agonizante.
- A senhora quer me matar ! - bradava.
*******
Já imobilizado no chão, o rapaz lançava violentas palavras contra o padre que jogava-lhe água benta, proferindo os incompreensíveis versos.
- E se o demo não souber latim ?- resmungou um dos voluntários. O rapaz foi se acalmando e permaneceu no chão. Apoiou-se com os braços e lentamente levantou-se. Retomara sua face serena.
O padre benzeu-lhe dando graças por uma graça alcançada, mas ao se aproximar, foi agarrado como uma presa. - Um pescoço de sessenta anos de idade nas mãos de um possesso. Novamente interferimos para imobilizar o rapaz.
Novas seções de exorcismo, longas rezas, e o rapaz, incansável, ora queria se atirar pela janela do sobrado, ora acusava a mãe e a irmã de traição.
O rapaz já estava com hematomas pelo corpo, e os voluntários exauridos. Aproximamo-nos então de um consenso, amarrá-lo e continuarmos no outro dia. Rapidamente uma corda surgiu. O rapaz ao vê-la e perceber qual era sua função, buscou todas as suas forças derrubando três pessoas de uma só vez. Por fim, foi amarrado.
A enfermeira vendo a atrocidade, entrou gritando:
- Não façam isso, vocês é que são uns demônios ! Não é assim que se trata de um ser humano.
- Ela está possuída também - acusou o padre.
- Não, seu padre, veja o seu demônio... - Tirou da maletinha uma ampola com um liquido marrom-escuro, sugou seu conteúdo por uma seringa e aproximou-se calmamente. O rapaz vociferou, não queria tomar a injeção, mas a enfermeira rapidamente introduziu a agulha em seu braço injetando o líquido.
- Calma, tem mais uma - disse ao rapaz acariciando sua cabeça. Aplicou, contou de um a dez e ordenou que soltassem-no. Assim o fizemos.
Ele levantou convalescente, olhou a sua volta e caminhou para o corredor procurando algo. Mantivemos certa distância e acompanhamos seus passos.
Encontrou sua sandália no caminho, calçou-a...Olhou para trás em nossa direção e disse:
- Estou com fome, vamos descer e comer ?...
Enfim, seu demônio prostrara-se aos pés de uma droga.
**********
De volta para casa, avistei uma bela mulher na frente do meu prédio, ela acendeu um cigarro, consultou o relógio e soltou uma longa baforada - Era dela aquele trejeito, era de Marlene aquele contorno. Sim !... Era ela...
Respirei fundo, o coração pulsou na altura da garganta. O que devo dizer ? Não dizer nada, ser indiferente ? Marlene esboçou um sorriso maroto ao me ver. Que boas notícias teria ? Disfarcei minha ânsia em revê-la, de sentir novamente o cheiro de seus cabelos. Abriguei as mãos suadas nos bolsos da calça e fui ter com ela.
- Oi Duda ! Onde estavas ? Te esperei vinte minutos aqui.- Perguntou.
- Andando pela noite... Andando !!
- Você está bem ?...
Fitei seus olhos. “Ela quer matar você” disse-me a voz. Retrocedi três passos vendo nos olhos de Marlene algo maléfico. Ela insistiu na pergunta:
- Duda ?!...
- Sim, estou bem ! - gritei - Saia daqui !... Você quer me MATAR !

Conto premiado, selecionado para publicação no Concurso de Contos da Região Norte e Nordeste. Kemel Kalif, 1999.

domingo, 31 de julho de 2011

Criador e criatura

                    Conta-se que o escritor Almir Abal fora surpreendido por uma imensa falta de idéias. Não podia mais dar continuidade a um romance que escrevera, até então, com precisão técnica e emoção verdadeiras, inerentes, autodidata que era.
Confortou-se, acreditando que seria apenas um desatino passageiro, coisa de rotina, causada talvez pelo seu próprio desejo de superar-se. Mas nada lhe veio a mente, nem uma só frase se formou, nem uma idéia iluminou sua escuridão criativa.
Tomado de um sentimento novo e estranho, misto de fúria e inércia, levantou-se, desligou o computador e pôs-se a andar de um lado para o outro. Apanhou as folhas de seu romance e foi caminhar em meio a vegetação na mata próxima ao seu sítio.
Andou por entre raízes e troncos caídos, e feixes de luz que perfuravam a copa das árvores. Encontrou um lugar para sentar e ler o que já tinha escrito, ao pé de uma frondosa árvore cujas raízes serviram-lhe de assento.
O pesado vôo de um besouro chamou-lhe atenção. Acompanhou a trajetória do inseto que pousou mais adiante. Pousou na mão, na mão de uma mulher. Assustou-se, seus olhos reconheceram os formatos femininos a destacarem-se das folhas, galhos e musgos da floresta. Era uma bela moça. Ela fez um gesto de saudação, e de maneira familiar aproximou-se do escritor. Seus passos pareciam não tocar o chão.
Com tamanha leveza, a estranha segurou sua mão e indicou uma trilha na mata, convidando-o a acompanhá-la. Almir Abal dispôs-se a caminhar ao lado da moça.
- Quem é você ?- Perguntou o escritor.
- Elna Marta !- Respondeu a moça, sorrindo.
- O quê ? Que brincadeira é essa ?
- Não há brincadeira alguma, meu nome é Elna Marta.
- Mas não pode, deve haver algum engano !
- Não há enganos, sou Elna Marta, a heroina do seu romance.
O escritor distanciou-se da moça. Confuso e torpe, observou-a. Sua vestimenta condizia com sua descrição, sua aparência era exata, tal como imaginava, e seu doce jeito de dizer “não há isso, não há aquilo” era precisamente o jeito de sua personagem.
- Vamos lá, se você não acredita e mim, então faça uma pergunta que só sua personagem, “se” fosse viva, saberia responder.
O escritor continuava com a mente embaralhada, mas resolveu aceitar o desafio.
- Quem foi o grande amante de Elna Marta ?- Perguntou em tom fulminante.
- Eu não tive nenhum um amante. - Respondeu a moça com ironia. - Apenas a paixão pelo Nicolau, que conservo no anonimato.
- Me fale sobre Nicolau
- Nicolau, é um homem mulherengo e rude ! – Confessou a moça.
Almir Abal tinha absoluta certeza de que ninguém jamais lera sua obra inacabada, guardara os manuscritos em um cofre dissimulado na parede do quarto, e os arquivos de computador só eram abertos através de senhas que ninguém mais sabia. Resolveu então, aceitar o convite da suposta Elna Marta.
Acompanhou-a pelo bosque. Chegaram até uma clareira. Senhores, moças e rapazes pareciam estar a sua espera. Um súbito frio percorreu-lhe o estômago, mas Elna Marta continuava a seu lado, e isto, de alguma maneira o confortava.
As hilárias figuras que ali se encontravam falavam aos ouvidos e acotovelavam-se fitando-o. A sensação de familiaridade foi ficando mais intensa a medida que reconhecia um ou outro dos presentes.
O velho de tez pálida trazia em uma das mãos um chapéu coco e, amarrada de qualquer maneira, junto ao pescoço, uma engraçada gravata verde limão com bolinhas pretas. Já o moço branco, de botas longas e avantajado físico, usava um suspensório que elevava-lhe a calça quase ao peito. A gorda senhora, por sua vez, com luvas grossas de cozinha e vestido decotado pela metade dos seios, deixava perceber, entre seus cochichos, um inqüestionável sotaque italiano. E tantas outras figuras surgiram na clareira... Todos admiravam o escritor como um nativo isolado em um recôndito tropical admiraria o gelo.
- Estão todos aqui ? – Perguntou Elna Marta, olhando sobre as cabeças. - Bem ...! – Continuou. - Este dia é muito importante para todos nós. Conseguimos, após muito tempo, vir à presença do “Criador”. - Apontou para o escritor. Todos os presentes se atiraram de joelhos ao solo e reverenciaram o escritor. Almir Abal permaneceu hirto, sentado em uma arvore caída que servia agora de altar. Mesmo sem elucidações para o que se lhe mostrava à frente, foi subitamente tomado de uma elevação, acreditando ser ele alguma divindade. Seu olhar tornou-se altivo, sentindo a superioridade que devem sentir as divindades. Elna Marta, como os demais, estava postada. Ergue-se lentamente e reiniciou o diálogo:
- Senhor Almir Abal, viemos todos, seguros de vosso bom coração, suplicar humildemente, cada um de nós, o que desejamos para nossas vidas. - Todos se levantaram e rapidamente formaram uma fila. Os pedidos iniciaram. Almir foi reconhecendo um por um de seus personagens. Pediam-lhe desde as coisas mais fúteis até os mais complexos amores e desejos a serem atendidos. O sentimento de superioridade crescia-lhe, à medida que podia negar ou conceder os pedidos.
Terminados os pedidos, os presentes dispuseram-se em forma de U, deixando no centro um pequeno carneiro amarrado a uma pedra. Do matagal que delimitava a clareira, surgiu uma figura ainda mais estranha. Pulava, rodopiava no ar e dançava. Usava um pano enrolado cobrindo a genitália, e uma capa decorada por inúmeras teclas de computador e máquina de escrever. Na cabeça, usava uma máscara ornamentada por todas as letras do alfabeto e em uma das mãos, empunhava um grande cajado em forma de lápis com a ponta bem afiada. A figura dançava de um lado para outro, pulava por vezes pronunciando alguma letra de A à Z. Reteve-se de costas para os presentes e encarou o escritor, cumprimentou-o baixando a cabeça e repentinamente, de um só movimento, girou sob os pés cravando o cajado no pequeno carneiro.
- Espere ! - Gritou Almir Abal - O que estão fazendo ?
- O sacrifício - respondeu Elna Marta. - O sacrifício para o Sr. Almir Abal, Deus das Letras, para que nossos pedidos sejam aceitos.
- Mas eu não sou Deus, eu não sou deus nenhum ! - Um murmúrio geral tomou conta do local.
- Mas o senhor é nosso criador ! - Gritou uma velhinha por trás das pessoas.
- É, o senhor é nosso criador - repetiu Elna Marta. E todos passaram a repetir em coro - “O senhor é nosso criador...”
- Parem, parem ! - gritou o escritor - eu não sou o criador, vocês nem sequer existem, isto deve ser um sonho...
- Então o senhor acha que pode nos criar e fazer o que bem entende, depois dizer que não tem nada haver com isso ! – Acusou o moço ariano.
- Esse é o nosso Deus ?! - questionou o gordo de bigode. - Se esse nosso Deus renega a própria criação, prefiro ser o mais profundo dos ateus.
As pessoas foram ficando enfurecidas. O escritor cogitava agora alguma maneira de fugir. Um velhinho gritou:
- Mas ele é o criador, e se não fores tementes à ele, ele lançará sua ira contra vós. Portanto para viveres sem temer, devereis destruir o criador.
Um grande tumulto formou-se e partiram todos contra o escritor. Este pôs-se a correr mata adentro, e correu como nunca havia corrido, desconhecendo a presença de galhos e espinhos a sua frente. As vozes do tumulto foram ficando cada vez mais distantes até que sentiu-se seguro outra vez.
Chegou em sua casa com a intenção de destruir o romance, e acabar com a loucura que acabara de ver. Revirou gavetas e encontrou um isqueiro, mas, inesperadamente, um clarão iluminou o recinto. Almir virou-se para a luz que ofuscava-lhe os olhos. Nesta luz, letras surgiam formando palavras, e as palavras formaram frases. O escritor pode ler as frases que se formavam, e diziam:
...revirou gavetas e encontrou um isqueiro, mas, inesperadamente um clarão iluminou o recinto...”
Ficou estático. Não queria aceitar, não queria acreditar, mas não havia outra explicação.
Ficou estático. Não queria aceitar, não queria acreditar...”
- Não ! - Gritou o escritor - Não é possível, isso não está acontecendo. - Desesperou-se.
Resolveu então fazer um teste, permaneceu olhando para as frases da luz, e mexeu as duas mãos, e lá se escreveu:
...mexeu as duas mãos.. ”
Agitou a cabeça em sentido negativo, e as palavras se formaram:
...agitou a cabeça em sentido negativo...”
E compreendeu... Por fim...
...e pegou a arma que estava na gaveta. Acabou-se assim a carreira de AlmirAbal. Fim.”

Conto de Kemel Kalif selecionado para publicação na Antologia de Contistas da Região Norte, no concurso regional de contos da Universidade Federal do Pará, ano 2000.