“Voraz é a noite, vorazes são os
pensamentos... E vozes !? Vozes sussurram o que as vezes parece
suspiro de mulher, gemido de prazer... de dor...”
O vento soprou mais forte no décimo quinto andar
do prédio de fachada escura, rodopiou papéis errantes,
assobiou pelas frestas do apartamento, e cantarolou sonetos
disformes. Na sacada, Descartes contemplou a taça de vinho que
antes beijara os lábios de Mariana, e que agora reluzia o
último brilho da noite. - A lua perdera-se por entre nuvens
carregadas de solidão.
Descartes contemplou a cidade disfarçada por
tantas luzes. - A cidade lhe era bela durante a noite ! - Desejou
então, que não existissem dias... Que as noites fossem
sempre assim: camuflagem para o caos urbano. Que sua própria
vida fosse assim: um disfarce escondendo na escuridão seus
desamores.
Sentimentos estranhos como o querer não eram bem
compreendidos para Descartes. - Mas afinal, para quem o são ?
- Não entendia qual força atrativa exercia a noite
assim como não entendia sua própria existência.
Sabia apenas, que a noite o puxava para o seu interior como um
predador insaciável.
- A noite, a existência ! Porque dormir e acordar
? Porque existir ?
Tomou o último trago do copo, livrou o pescoço
da gravata, galgou o parapeito, abriu o terno segurando-o como duas
azas e pulou...
Sentiu o vento veloz percorrendo seu corpo, viu as luzes
de cada janela passando como postes acesos na estrada... E confirmou:
era verdade o que as pessoas diziam sobre os segundos que antecedem a
morte !
O seio materno, o trem de pilha, o desejo pela
professora do primário, a primeira mulher, o trabalho, os
amigos... Tudo passou numa fração eterna de segundos. E
se cada milésimo de segundo convertera-se em anos de sua vida,
dedicou seus últimos anos a lembrança de Mariana.
Lembrou...lembrou, e o tempo, não mais absoluto,
estava flexível, como se pudesse manipulá-lo,
retroceder e avançar... Parar.
Cada traço do corpo de Mariana, o seu cheiro,
trejeitos, a sensação de deslumbre ao conhece-la, foram
recordados metodicamente, e antes que, em queda livre, terminasse de
pronunciar o seu nome, sua mente processara cada imagem da mulher
amada.
Viu-se em meio ao trânsito em um dia quente,
quando voltava do trabalho. Mariana passou pela calçada com um
vestido curto que lhe acentuava as pernas roliças e douradas.
Ele acompanhou seu andar gracioso, ela entrou em um ônibus
deixando ainda um sorriso doce e convidativo.
Noutro dia, por obra do acaso (?), a encontrara no
centro da cidade. Aproximaram-se, flertaram, e o que antes era um
esboço de pintura abstrata, tornou-se concreto e palpável,
uma possibilidade. - A musa saíra das páginas do
folhetim para prover o gozo do escritor, e o escritor, melancólico,
agarraria-se como um parasita a sua criação.
O restaurante
A garota, extrovertida, pôs-se a falar de uma
maneira engraçada com a língua presa no “r”, e ele,
deslumbrado, encontrava alguma familiaridade naquele falar. Ela
gracejava e comemorava suas próprias piadas com desatinadas
gargalhadas, e ele rejubilava-se com tanta espontaneidade. Ela
relatava experiências cômicas, bobas, fúteis...
Ele, sorria apenas, afinal, o que é a futilidade diante do
desejo ?
A casa dela
Opiniões sobre as coisas, experiências de
vida, fatos ocorridos na família. A conversa tomara o tom
cúmplice dos enamorados. Ela perguntava, ele respondia; ela,
risos; ele, volúpia.
- Descartes ! O filosofo ?
- Não, apenas Descartes.
- Seus pais deviam gostar de filosofia, você gosta
?
- Não conheço muita coisa sobre filosofia,
aliás, quero entender muitas coisas ao meu redor.
- Então você é um filosofo nato.
E depois...
Pensou naquelas palavras durante a noite: “filósofo”.
Lembrava a cada instante dos lábios delineados de Mariana, a
pronunciar cada sílaba: fi-ló-so-fo. Assim sentiu-se:
filósofo nato.
O acaso
Mariana desceu do ônibus abraçando sua
bolsa como a um bebê. Consultou o papel em que anotara o
endereço, desviou de olhares insinuantes e de convites
obscenos. Da janela, Descartes a viu pedir informação
ao porteiro. Arrumou o apartamento, pôs para gelar um litro de
vinho, vestiu o seu melhor terno. Atendeu ao chamado da campainha
tentando transparecer naturalidade, encenando uma expressão de
surpresa ao vê-la. Ela explicou que passava em frente ao prédio
e resolvera fazer-lhe uma visita. Ele convidou-a a entrar,
ofereceu-lhe o vinho, e mostrou-lhe curiosidades: relógio
antigo, isqueiro a querosene, fotos de uma viagem ao Tibet,
miscelâneas da infância.
Um copo e outro, mais uma garrafa. A sinceridade
alcoólica se apossara de Descartes. Contemplava, em longos e
admiradores olhares, as pernas cheias e tesas da moça morena.
Sua vontade, toca-las. Seu desejo, preencher as mãos com os
seios de Mariana.
Alguns minutos a fitá-la, e escapou-lhe a
confissão em forma de clichê:
- Te amo !
A frase, sem resposta, ecoou no vazio e encheu a sala de
desconcertante silêncio. Mariana, meiga - seria convincente se
não fosse meiga, mas era dolorosamente meiga, - expôs o
motivo que invalidava qualquer proposta de relacionamento entre os
dois. Ela o tinha com apreço, mas o apreço para um
apaixonado é como alimento na vitrine para quem tem fome.
Descartes sentiu um calor extremo, um sufocar tamanho que obrigou-o a
levantar e lavar o rosto como se lavasse a própria alma, e com
ela, o desejo e a falta que já sentia de um corpo que nunca
tocou.
“Consolos são chibatadas que se tentam
aplicar sem ferir, mas que marcam a pele, vão além da
carne, e penetram o espírito para doer no âmago...”
E no âmago, Descartes explodia com seus sonhos,
corroía-lhe as entranhas a voz de Mariana, “Eu gosto de
você, mas...”. Tomou de um só gole o vinho, conteve em
um gesto sua dor, olhou a cidade esplendorosa...
- Desculpe, acho que bebi muito, nunca mais farei isso.
Mariana passou-lhe a suave mão na cabeça,
imprimindo o sorriso, o mesmo doce sorriso, ainda mais platonicamente
convidativo... Depois saiu.
No elevador sentiu-se suja, olhou para sua parcelada
imagem no espelho quebrado e foi tomada de imensa culpa. Não
era de sua estirpe joguetear com o sentimento alheio, não lhe
era agradável tripudiar com coração de uma alma
generosa. Mas se o fizera, era sem perceber, consolou-se.
- A culpa não foi sua – Alguém lhe
falou, adivinhando seus pensamentos. Ela olhou assustada, e encontrou
seu pai no elevador.
- Descartes tem livre arbítrio – Continuou o
velho – Você poderá vê-lo pois ele já fez
sua escolha. E de lá transfigurou-se, pois seu pai, que aliás
é o pai de todos, arrebatou-a aos céus, ela que era um
anjo com missão incompleta. Caiu por terra o seu corpo sem
vida no mesmo instante que o corpo de um homem, na rua, era motivo de
gritos e pedidos de socorro.
“Deus escreve certo por linhas retas... Torto ?
Torto, somos nós doutor ! ”– Falou o taxista que contou-me esta estória.
Kemel A. B. Kalif, em "Antologia de contistas da Região Norte". Belém:Universidade Federal do Pará, 1999
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