sábado, 3 de agosto de 2013

Perguntas e respostas para Descartes


Voraz é a noite, vorazes são os pensamentos... E vozes !? Vozes sussurram o que as vezes parece suspiro de mulher, gemido de prazer... de dor...
O vento soprou mais forte no décimo quinto andar do prédio de fachada escura, rodopiou papéis errantes, assobiou pelas frestas do apartamento, e cantarolou sonetos disformes. Na sacada, Descartes contemplou a taça de vinho que antes beijara os lábios de Mariana, e que agora reluzia o último brilho da noite. - A lua perdera-se por entre nuvens carregadas de solidão.
Descartes contemplou a cidade disfarçada por tantas luzes. - A cidade lhe era bela durante a noite ! - Desejou então, que não existissem dias... Que as noites fossem sempre assim: camuflagem para o caos urbano. Que sua própria vida fosse assim: um disfarce escondendo na escuridão seus desamores.
Sentimentos estranhos como o querer não eram bem compreendidos para Descartes. - Mas afinal, para quem o são ? - Não entendia qual força atrativa exercia a noite assim como não entendia sua própria existência. Sabia apenas, que a noite o puxava para o seu interior como um predador insaciável.
- A noite, a existência ! Porque dormir e acordar ? Porque existir ?
Tomou o último trago do copo, livrou o pescoço da gravata, galgou o parapeito, abriu o terno segurando-o como duas azas e pulou...
Sentiu o vento veloz percorrendo seu corpo, viu as luzes de cada janela passando como postes acesos na estrada... E confirmou: era verdade o que as pessoas diziam sobre os segundos que antecedem a morte !
O seio materno, o trem de pilha, o desejo pela professora do primário, a primeira mulher, o trabalho, os amigos... Tudo passou numa fração eterna de segundos. E se cada milésimo de segundo convertera-se em anos de sua vida, dedicou seus últimos anos a lembrança de Mariana.
Lembrou...lembrou, e o tempo, não mais absoluto, estava flexível, como se pudesse manipulá-lo, retroceder e avançar... Parar.
Cada traço do corpo de Mariana, o seu cheiro, trejeitos, a sensação de deslumbre ao conhece-la, foram recordados metodicamente, e antes que, em queda livre, terminasse de pronunciar o seu nome, sua mente processara cada imagem da mulher amada.
Viu-se em meio ao trânsito em um dia quente, quando voltava do trabalho. Mariana passou pela calçada com um vestido curto que lhe acentuava as pernas roliças e douradas. Ele acompanhou seu andar gracioso, ela entrou em um ônibus deixando ainda um sorriso doce e convidativo.
Noutro dia, por obra do acaso (?), a encontrara no centro da cidade. Aproximaram-se, flertaram, e o que antes era um esboço de pintura abstrata, tornou-se concreto e palpável, uma possibilidade. - A musa saíra das páginas do folhetim para prover o gozo do escritor, e o escritor, melancólico, agarraria-se como um parasita a sua criação.


O restaurante
A garota, extrovertida, pôs-se a falar de uma maneira engraçada com a língua presa no “r”, e ele, deslumbrado, encontrava alguma familiaridade naquele falar. Ela gracejava e comemorava suas próprias piadas com desatinadas gargalhadas, e ele rejubilava-se com tanta espontaneidade. Ela relatava experiências cômicas, bobas, fúteis... Ele, sorria apenas, afinal, o que é a futilidade diante do desejo ?

A casa dela
Opiniões sobre as coisas, experiências de vida, fatos ocorridos na família. A conversa tomara o tom cúmplice dos enamorados. Ela perguntava, ele respondia; ela, risos; ele, volúpia.
- Descartes ! O filosofo ?
- Não, apenas Descartes.
- Seus pais deviam gostar de filosofia, você gosta ?
- Não conheço muita coisa sobre filosofia, aliás, quero entender muitas coisas ao meu redor.
- Então você é um filosofo nato.

E depois...
Pensou naquelas palavras durante a noite: “filósofo”. Lembrava a cada instante dos lábios delineados de Mariana, a pronunciar cada sílaba: fi-ló-so-fo. Assim sentiu-se: filósofo nato.

O acaso
Mariana desceu do ônibus abraçando sua bolsa como a um bebê. Consultou o papel em que anotara o endereço, desviou de olhares insinuantes e de convites obscenos. Da janela, Descartes a viu pedir informação ao porteiro. Arrumou o apartamento, pôs para gelar um litro de vinho, vestiu o seu melhor terno. Atendeu ao chamado da campainha tentando transparecer naturalidade, encenando uma expressão de surpresa ao vê-la. Ela explicou que passava em frente ao prédio e resolvera fazer-lhe uma visita. Ele convidou-a a entrar, ofereceu-lhe o vinho, e mostrou-lhe curiosidades: relógio antigo, isqueiro a querosene, fotos de uma viagem ao Tibet, miscelâneas da infância.
Um copo e outro, mais uma garrafa. A sinceridade alcoólica se apossara de Descartes. Contemplava, em longos e admiradores olhares, as pernas cheias e tesas da moça morena. Sua vontade, toca-las. Seu desejo, preencher as mãos com os seios de Mariana.
Alguns minutos a fitá-la, e escapou-lhe a confissão em forma de clichê:
- Te amo !
A frase, sem resposta, ecoou no vazio e encheu a sala de desconcertante silêncio. Mariana, meiga - seria convincente se não fosse meiga, mas era dolorosamente meiga, - expôs o motivo que invalidava qualquer proposta de relacionamento entre os dois. Ela o tinha com apreço, mas o apreço para um apaixonado é como alimento na vitrine para quem tem fome. Descartes sentiu um calor extremo, um sufocar tamanho que obrigou-o a levantar e lavar o rosto como se lavasse a própria alma, e com ela, o desejo e a falta que já sentia de um corpo que nunca tocou.
Consolos são chibatadas que se tentam aplicar sem ferir, mas que marcam a pele, vão além da carne, e penetram o espírito para doer no âmago...
E no âmago, Descartes explodia com seus sonhos, corroía-lhe as entranhas a voz de Mariana, “Eu gosto de você, mas...”. Tomou de um só gole o vinho, conteve em um gesto sua dor, olhou a cidade esplendorosa...
- Desculpe, acho que bebi muito, nunca mais farei isso.
Mariana passou-lhe a suave mão na cabeça, imprimindo o sorriso, o mesmo doce sorriso, ainda mais platonicamente convidativo... Depois saiu.
No elevador sentiu-se suja, olhou para sua parcelada imagem no espelho quebrado e foi tomada de imensa culpa. Não era de sua estirpe joguetear com o sentimento alheio, não lhe era agradável tripudiar com coração de uma alma generosa. Mas se o fizera, era sem perceber, consolou-se.
- A culpa não foi sua – Alguém lhe falou, adivinhando seus pensamentos. Ela olhou assustada, e encontrou seu pai no elevador.
- Descartes tem livre arbítrio – Continuou o velho – Você poderá vê-lo pois ele já fez sua escolha. E de lá transfigurou-se, pois seu pai, que aliás é o pai de todos, arrebatou-a aos céus, ela que era um anjo com missão incompleta. Caiu por terra o seu corpo sem vida no mesmo instante que o corpo de um homem, na rua, era motivo de gritos e pedidos de socorro.

Deus escreve certo por linhas retas... Torto ? Torto, somos nós doutor ! ”– Falou o taxista que contou-me esta estória.

Kemel A. B. Kalif, em "Antologia de contistas da Região Norte". Belém:Universidade Federal do Pará, 1999

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