quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Crença

- Foi em noite de insônia e de céu sem estrelas...
No quarto pequeno e quente figuravam silhuetas: Porta-retratos, aparelhos de som, lembranças de Marlene. Pela janela, contemplei janelas distantes que acendiam...apagavam, e luzes preguiçosas que vacilavam nos becos.
Uma brisa tocou-me, volveu meus pensamentos - Era a noite, era a rua. Rua deserta e escura, o breu como disfarce, ver o mundo como observador intocável. - Como Deus !
- Desejei o poder de Deus, desejei ter Marlene outra vez...
Uma estranha voz aconselhou-me: “Vá ! Ande pela noite!” Assustei-me, no quarto não havia ninguém. Compreendi que a voz era de um anjo caído, uma punição por igualar-me ao Criador.
Levantei-me desatinado, um arrepio percorreu-me o corpo. No banheiro lavei o rosto esfregando com força, não olhei para o espelho, tive medo. Caminhei em direção a janela, no caminho parei, voltei, sentei-me. Senti-me impotente perante aquela voz, senti-me um fantoche nas mãos de Deus. E fugindo da automação das criaturas de Deus, obedeci o anjo torto. Vaguei a procura de vida, e em ruas escuras a noite me abraçou, o seio da noite, regado de leite escuro, de proteção materna. Não era mera ausência de luz aquela escuridão, era um afago envolvendo o corpo.
*******
A voz me conduziu por entre pichações e cães malandros. Um grito ! Não distante, ecoou. Alguém maldizia o mundo, perdera também sua Marlene. Os gritos vinham de um velho sobrado. Uma mulher chorosa, de tez pálida abordou-me, pediu ajuda. Ela precisava de força para segurar seu irmão pois um demônio instalara-se em seu corpo. Vacilei, pensei em correr, mas a voz segredou-me que o sobrado era mágico.
Subimos por uma escada rangente que desembocava em um amplo salão, o ar era úmido, quente... estagnado, como as faces das pessoas que aguardavam. Um padre de escassos cabelos adentrou, trazendo crucifixos - não sei quantos - nas mãos e uma bíblia debaixo do braço. Tomou atitudes de um general e passou instruções para a tropa: três rapazes, uma enfermeira e uma senhora.
- Meus filhos - disse o padre - não tenhais medo dos exércitos malignos, pois o Senhor está conosco e, lado a lado, marcharemos sobre os campos da terra - baixou a cabeça, puxou ar, e continuou: - Vamos ajudar um filho de Deus que encontra-se atormentado por um demônio que apoderou-se de sua pouca fé...
- Pare com esta tolice seu padre !- interrompeu a jovem enfermeira. - Deixe-me cuidar do tal possesso, provo para todos que vinte mil rezas não vão curá-lo.
- Felizes os que crêem sem ver - retomou a palavra o padre. - Minha filha, tua pouca fé faz cederes as artimanhas deste demônio, retira-te daqui e põe-te a rezar antes que este mal se apodere da tua carne.
A mãe do enfermo integrou a equipe e passou e relatar alguns antecedentes, para que os presentes soubessem da dimensão do caso:
- Meu filho sempre foi muito estranho, ele diz que escuta vozes e que estas vozes dizem-lhe o que fazer. O demônio que se apoderou da cabeça dele é quem diz estas coisas, só pode ser coisa do capeta...
- Capeta ?! - A enfermeira interrompeu mais uma vez. Tentou convencer de que podia resolver o caso. E novamente não teve atenção. A mãe do rapaz, em prantos, continuou:
- Não tenham medo, em nome de Deus !... Segurem-no !
Seguimos ao andar superior do velho sobrado e aguardamos à porta de um quarto, enquanto o padre, a mãe do possesso e sua irmã tentavam conversar, evitando usar a força. Retornaram chamando o restante do grupo. “Entre !” ordenou-me a voz. Senti um frio na barriga como quando se desce subitamente, um medo desigual, um ódio de um demônio covarde que ordena sem se mostrar, e que coloca alguém na divisão entre a loucura e a crença, no limiar da tolerância à existência humana.
No quarto, não haviam móveis quebrados nem escritos satânicos como imaginei, apenas um jovem, sereno, sentado na cama. Se espantou com a presença de tanta gente estranha. Sentiu-se coagido, e de pé, perguntou à sua mãe quem eram aquelas pessoas. Soluçando, a mãe não conseguia responder.
O padre abriu a bíblia e começou a proferir rezas em latim.
- O que é isso mãe ? - perguntou mais alto o rapaz.
- Calma meu filho, calma, o padre está apenas rezando, é para o seu bem...
- Meu bem ?! Eu não tenho nada, não preciso disso, vocês querem é me matar, vocês vão me matar ! - O rapaz parecia agora ter adquirido ares de possesso. Continuou gritando: - Saiam daqui, vocês só querem o meu mal, todos vocês - e passou a destruir objetos a sua frente.
- O que é isso mãe ?... A senhora quer me matar... o que vocês pensam ?... Tirem este padre daqui, eu ainda não estou morto !
Todos recuaram. Permaneci estático, não pelo fato de haver em mim grande coragem, mas sim, pela familiaridade que sentia para com aquele rapaz, como se pudesse entender tudo que se passava com ele. - Nossos demônios talvez fossem irmãos.
O rapaz bradou, maldizendo a todos, nem mesmo o padre foi respeitado, o que o fazia rezar com mais força e irritar ainda mais o rapaz. No meio de tantas orações contra pragas, o rapaz atirou-se sobre a mãe agarrando-a pelo pescoço, como um cão pega sua carne e não quer mais soltar. Seguramo-lo apertando seus punhos para retirar a mão do pescoço agonizante.
- A senhora quer me matar ! - bradava.
*******
Já imobilizado no chão, o rapaz lançava violentas palavras contra o padre que jogava-lhe água benta, proferindo os incompreensíveis versos.
- E se o demo não souber latim ?- resmungou um dos voluntários. O rapaz foi se acalmando e permaneceu no chão. Apoiou-se com os braços e lentamente levantou-se. Retomara sua face serena.
O padre benzeu-lhe dando graças por uma graça alcançada, mas ao se aproximar, foi agarrado como uma presa. - Um pescoço de sessenta anos de idade nas mãos de um possesso. Novamente interferimos para imobilizar o rapaz.
Novas seções de exorcismo, longas rezas, e o rapaz, incansável, ora queria se atirar pela janela do sobrado, ora acusava a mãe e a irmã de traição.
O rapaz já estava com hematomas pelo corpo, e os voluntários exauridos. Aproximamo-nos então de um consenso, amarrá-lo e continuarmos no outro dia. Rapidamente uma corda surgiu. O rapaz ao vê-la e perceber qual era sua função, buscou todas as suas forças derrubando três pessoas de uma só vez. Por fim, foi amarrado.
A enfermeira vendo a atrocidade, entrou gritando:
- Não façam isso, vocês é que são uns demônios ! Não é assim que se trata de um ser humano.
- Ela está possuída também - acusou o padre.
- Não, seu padre, veja o seu demônio... - Tirou da maletinha uma ampola com um liquido marrom-escuro, sugou seu conteúdo por uma seringa e aproximou-se calmamente. O rapaz vociferou, não queria tomar a injeção, mas a enfermeira rapidamente introduziu a agulha em seu braço injetando o líquido.
- Calma, tem mais uma - disse ao rapaz acariciando sua cabeça. Aplicou, contou de um a dez e ordenou que soltassem-no. Assim o fizemos.
Ele levantou convalescente, olhou a sua volta e caminhou para o corredor procurando algo. Mantivemos certa distância e acompanhamos seus passos.
Encontrou sua sandália no caminho, calçou-a...Olhou para trás em nossa direção e disse:
- Estou com fome, vamos descer e comer ?...
Enfim, seu demônio prostrara-se aos pés de uma droga.
**********
De volta para casa, avistei uma bela mulher na frente do meu prédio, ela acendeu um cigarro, consultou o relógio e soltou uma longa baforada - Era dela aquele trejeito, era de Marlene aquele contorno. Sim !... Era ela...
Respirei fundo, o coração pulsou na altura da garganta. O que devo dizer ? Não dizer nada, ser indiferente ? Marlene esboçou um sorriso maroto ao me ver. Que boas notícias teria ? Disfarcei minha ânsia em revê-la, de sentir novamente o cheiro de seus cabelos. Abriguei as mãos suadas nos bolsos da calça e fui ter com ela.
- Oi Duda ! Onde estavas ? Te esperei vinte minutos aqui.- Perguntou.
- Andando pela noite... Andando !!
- Você está bem ?...
Fitei seus olhos. “Ela quer matar você” disse-me a voz. Retrocedi três passos vendo nos olhos de Marlene algo maléfico. Ela insistiu na pergunta:
- Duda ?!...
- Sim, estou bem ! - gritei - Saia daqui !... Você quer me MATAR !

Conto premiado, selecionado para publicação no Concurso de Contos da Região Norte e Nordeste. Kemel Kalif, 1999.